Mecânico conta os bastidores de acidentes do Aeroporto de Brasília

Nem só de glamour vive a aviação. Alguns sustos nunca chegaram a ser divulgados

Minervino Junior/CB/D.A Press

Chovia torrencialmente na noite de 24 de maio de 1982, data do pior acidente aéreo da história do Aeroporto Internacional de Brasília Juscelino Kubitschek. O voo número 234 da Vasp vinha de Porto Alegre e tinha feito escala em São Paulo. No terminal brasiliense, apesar do aguaceiro, tudo transcorria de acordo com a rotina. Entre os funcionários estava o mecânico de aviões da Varig Francisco do Nascimento Silva, à época com 30 anos.

Por volta das 23h40, algo incomum aconteceu. Primeiro, o piloto levou a aeronave ao solo drasticamente. O trem de pouso tocou o asfalto e o avião subiu outra vez, como num salto. Na sequência, os passageiros esperavam que o piloto arremetesse (fizesse o avião pegar altura), mas a aeronave desceu de uma vez, batendo com força no chão e provocando pânico generalizado. “É uma coisa rara. Ninguém esperava”, recorda Francisco, 35 anos depois da tragédia. Com 40 anos de profissão no terminal aéreo, recém-completados em 15 de setembro, ele coleciona diversas histórias de incidentes e outros casos que aconteceram nos bastidores do terminal aéreo brasiliense.
Após o impacto com o solo, já não era mais possível evitar a tragédia. A aeronave, um Boeing 737-2A1, com 112 passageiros rodou e saiu da pista. Com o choque, partiu-se em duas. Morreram duas pessoas e 17 ficaram feridas. Estavam justamente nas linhas de assentos onde a estrutura se rompeu. “Só a equipe de salvamento do Corpo de Bombeiros e alguns funcionários da Infraero podiam ir até o local, mas todos saíram para ver. Eu nunca tinha visto algo assim. Ficamos desolados. Isso mexeu com a vida de todos que trabalhavam no local na época”, conta o profissional.
Francisco lembra que a tragédia, talvez a primeira prova de fogo do Aeroporto de Brasília, quase se repetiu meses depois, em 4 de dezembro daquele ano, desta vez durante a decolagem do Boeing 707-323 B da Global International Airways. A aeronave, que seguiria para os Estados Unidos, levava repórteres americanos que vieram ao país cobrir a visita de Ronald Reagan, à época presidente dos EUA, ao Brasil. Por volta das 8h30, durante a decolagem, um dos trens de pouso traseiros da aeronave foi danificado após bater em uma antena do aeroporto.
Mesmo sem uma parte do equipamento, o piloto levantou voo, mas não poderia seguir para Miami com a avaria. O avião também estava com excesso de peso. Como o tanque de combustível da aeronave estava cheio, o capitão Gary Edward foi obrigado a sobrevoar Brasília por cerca de duas horas, e também despejou parte do querosene antes de fazer um pouso de emergência com apenas dois trens de pouso. A roda danificada deixou uma trilha de fogo no caminho e, por fim, para conseguir parar o avião, Gary deu um cavalo de pau e parou fora da pista. “Foi uma expectativa muito grande. Na época, só tinha uma pista, então, mais uma vez, interditaram o aeroporto. Mas, pelo menos desta vez, ninguém morreu”, afirma aliviado.

Água no tanque

Longe da vista dos passageiros que percorrem o saguão do aeroporto diariamente, os mecânicos de avião trabalham diuturnamente para evitar tragédias como as contadas acima. Ainda hoje, já como coordenador de manutenção de base, chefiando a equipe, Francisco faz questão de sujar a mão de graxa e de checar, passo a passo, os requisitos de segurança para prevenir incidentes. Vem dando certo, felizmente.
Mas falhas inesperadas e erros humanos sempre acontecem. Alguns dos incidentes que o profissional presenciou se perderam entre tantas datas na passagem do tempo. “Peguei um cargueiro D707, que ia de Miami para o Rio. Ele pediu para pousar no Aeroporto de Brasília, pois um dos quatro motores tinha parado de funcionar. Quando estava se preparando para pousar, o outro perdeu força. O problema era água no combustível. Ainda bem que essa aeronave tem quatro motores e consegue pousar só com dois. Tiramos muitos litros d’água e ele seguiu viagem”, narra. De acordo com Francisco, é comum a condensação de água no tanque de combustível dos aviões. Mecânicos fazem uma drenagem periódica nos equipamentos. “Mas, hoje, quando acontece, é em quantidades muito menores”, explica.

Perda total

Outro grande susto aconteceu em 16 de junho de 2006, quando um MD-11 da Varig que fazia um voo comercial perdeu um dos trens de pouso principais enquanto pousava. O problema aconteceu perto da hora do almoço. O voo 2204 levava 108 passageiros para Manaus e fazia uma escala em Brasília. Quem estava na aeronave sentiu o tranco e ouviu um barulho. “Foi na segunda pista, que era recém-inaugurada. Tivemos que buscar a peça com uma empilhadeira. Além da nossa equipe, chamaram especialistas do Rio e dos Estados Unidos para recuperarem a aeronave, que sofreu diversas avarias”, revela.
Foram muitas as quase tragédias de que Francisco se recorda. Em 28 de março de 2014, um avião da Avianca pousou sem o trem de pouso dianteiro, de bico. “Ninguém se feriu, mas foi perda total para o veículo.” Em 24 de fevereiro de 2016, duas aeronaves quase colidiram no pátio e, um mês depois, a turbina de um avião da Gol pegou fogo. Apesar disso, o mecânico garante, voar ainda é a forma mais segura de viajar. “É só fazer as contas. Quantas pessoas morrem de acidente nas rodovias brasileiras por dia? Quando cai um avião, é uma tragédia, mas é muito raro. Uma exceção”, garante.

Preocupação com a segurança sempre

 

Francisco do Nascimento Silva nasceu em 18 de outubro de 1952 e, 19 anos depois, ingressou na Aeronáutica, na segunda tentativa. “Eu não tinha estatura”, conta. Lá, começou a trabalhar como datilógrafo. Serviu por sete anos, cinco meses e 25 dias e, em seguida, fez um curso para leitura e interpretação de desenhos mecânicos. Era o começo da trajetória que o levaria à profissão de sua vida.

 

Trabalhou como ajudante de mecânico na companhia aérea Cruzeiro do Sul e, anos depois, por conta da fusão das empresas, virou funcionário da Varig. No início da carreira, ouviu muitas piadas, mas nunca se deixou levar. “As pessoas nos chamavam de carregador de caixa de ferramenta e mandavam alguns buscarem a chave do avião. Mas avião não tem chave”, sorri. “Hoje é diferente. Já melhorou bastante. Ainda tem brincadeiras, mas respeitam muito mais.”

 

Nascimento, como é conhecido entre os amigos, guarda todas as carteiras — sete, no total — e documentos da época em um envelope marrom. Nas primeiras, ostentava um bigode espesso e negro, bem diferente do atual cavanhaque branco bem recortado, que contrasta com a pele negra. Ao falar da profissão, embora compreenda a necessidade de certas hierarquias, guarda para si uma visão horizontal. “Na aviação, todos são importantes. O mecânico, o piloto, a menina da limpeza, a pessoa responsável por drenar os dejetos do avião. Se faltar um, a aeronave não voa”, garante.

Assim como os documentos, guarda com carinho as lembranças de casos de manutenção. Não ficou restrito ao Aeroporto de Brasília. Lotado no terminal, viajou o mundo para fazer cursos e trabalhar em aeronaves danificadas. Esteve nos Estados Unidos, no México — na capital e em Cancún —, na Colômbia, no Chile e na África do Sul. Passou oito meses trabalhando em aviões no Senegal. “Fui, inicialmente, por causa de um cargueiro que levaria alimentos para a Alemanha. Precisava de uma peça que viria da Itália. Tive que manter a aeronave ligada por vários dias para não perder a carga. Mal dormia. Só ia ao hotel comer e tomar banho”, recorda.

 

Hoje, aos 65, após dois casamentos, três filhos e dois netos, ele é coordenador de manutenção de base. Comanda toda uma equipe de outros mecânicos que trabalham 24 horas por dia fazendo check-up e manutenção em aviões no Aeroporto Internacional de Brasília Juscelino Kubitschek. Ele se aposentou em 1994, mas decidiu continuar trabalhando. “Isso aqui é como uma cachaça, um vício diário”, brinca.

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